O rádio sempre foi um aparelho indispensável na casa da qualquer família, mas no passado só era possível para quem morava nas localidades onde havia redes de luz elétrica. Mas lá pelos anos 60 apareceram no comércio os primeiros rádios receptores transistorizados que deu a oportunidade para as famílias que moravam no interior, ter seu radinho à pilha onde através dele ficavam informados de todos os acontecimentos e notícias da sua localidade, do estado, doBrasil e do mundo. Os programas sertanejos lideravam a audiência, principalmente à noite, nas rádios de São Paulo. E com o crescimento dos rádios à pilha, principalmente aqui no interior de Canelinha, os rádio ouvintes tinham dificuldades em concertar seus aparelhos . Foi então que pensei em fazer um curso de eletrônica e em seguida instalei uma pequena oficina de concertos e montagem de qualquer tipo de aparelho de som e eletro doméstico. Diariamente apareciam os fregueses trazendo seus rádios para o concerto e falando naquele linguajar sertanejo. Faziam quase sempre a mesma indagação: “O meu rádio tava tocando no programa do Jacó e Jacozinho e de repente parou in seco, o qui é que podia sê”? Como era impossível apontar o defeito sem antes fazer uma revisão, então eu falava: “Talvez na sua casa não tenha goteira?” Outros perguntavam se eu fazia pilhas de rádio. “Sim eu vou empilhando os rádios para não ocupar muito espaço”. E sempre novas histórias aconteciam com este povo humilde e laborioso. Certo dia, por volta das duas horas da tarde, chegou à oficina, uma senhora trazendo no porta bagagem da bicicleta um rádio envolvido numa toalha. A mulher foi entrando mal humorada, ela demonstrava um desânimo, pediu um copo de água e começou a contar a história do seu rádio. A simpática senhora comentava que saiu para trabalhar na lavoura de fumo e deixou o seu menino em casa ouvindo o rádio sintonizado na rádio da sua localidade, que era a preferida. A mulher ao retornar do trabalho ligou o aparelho para ouvir a oração da Ave Maria, mas estranhou a voz da apresentadora, ela só falava em estrangeiro. No dia seguinte ligou novamente o rádio e ouviu uma nota de falecimento, mas não soube o nome do falecido e nem a hora do enterro. A mulher falava mais, dizia que o relógio deles estava doido, quando são oito horas, ele bate meia noite. O Onali fala tudo atrapalhado e não dá mais aquelas risadas como dava antes, a rádio virou uma torre de babel. Depois de ter ouvido os comentários a respeito do rádio desta mulher, tratei logo de desvendar o mistério, peguei o aparelho e coloquei em cima da mesa de trabalho. O rádio era da marca SEMP com quatro faixas de ondas. Ao ligar o misterioso aparelho ouvi o som do famoso relógio BIG-BEN batendo 18h00min e logo entendi que ele estava sintonizado na BBC de Londres, e a mulher ainda com dúvidas perguntava: “Vai ter concerto?” Sem dizer nada virei o botão para a faixa de ondas médias e logo apareceu uma música que era o maior sucesso da emissora naqueles tempos, a cobra sucuri do saudoso Teixerinha. Mesmo assim a mulher ainda tinha dúvidas. Somente ficou acreditando quando ouviu a voz do mais carismático locutor de rádio da região de Tijucas, o então jovem Onali Pereira de Melo, que entre outras palavras falou assim: “Querem saber a hora? Aqui na cidade onde ninguém anda descalço e nem tomam café amargo, são precisamente 14h e 20min! A mulher vibrou de alegria como se tivesse comemorando uma grande vitória. Moral da história, o menino teria virado o botão da banda BROADCAST para SHORT WAVE.